Outras ainda ao curtir seus livros e suas plantas

Mario Sergio Cortella aborda vários pontos pertinentes à vida de quase todo mundo, desde desapego ao material às crises existenciais, tentando responder aquela pergunta: "se você não existisse, que falta faria?".  Ele não dá respostas prontas, é um livro para ser lido com calma, e lido novamente, pois ele te faz pensar, nas suas escolhas, nos seus caminhos, em quem você é, quem quer ser, como quer ser visto e lembrado. Uma coisa meio "A culpa é das estrelas" quando Gus diz que não quer ser esquecido.

O próprio livro fez eu me libertar de certas amarras e dar umas rabiscadas durante a leitura, e foi libertador. Me senti durante toda a leitura levando tapas na cara e às vezes só balançando a cabeça em concordância, e às vezes, confesso, torcendo o nariz porém lá no fundo sabendo que era tudo verdade.
Refletir a diferença entre saudade e nostalgia, raízes e âncoras, teve um peso muito grande. O capítulo "Escrever, para apaziguar..." de cara já teve aquela identificação só de ler o nome. Pensar que eu sou a pessoa do título desse texto, por isso escolhi essa citação para apresentar o livro. Perceber alguns amigos durante a leitura.

"Isso é felicidade: sentir-se vivo. Há pessoas que se sentem felizes ao acumular riquezas. Outras, ao zelar pela família. Outras ainda ao curtir seus livros e suas plantas."

A filosofia do ser está presente no livro todo, e mais uma vez eu lembro que preciso só ser de vez em quando.

E essa é uma tentativa de voltar a resenhar por aqui, mas é aquilo, eu só consigo fazer resenhas em cima de sentimentos, por isso é tão difícil começar e terminar de falar sobre alguns livros...

Então eu li Machado de Assis e não achei lá essas coisas

Brás Cubas já morreu e decide escrever um livro sobre sua vida, até chegar em sua morte. Como ele mesmo diz, ele não é "um autor defunto, e sim um defunto autor".

É um livro bom para quem gosta de ouvir histórias sobre vidas alheias, pois nada mais é que isso. Eu não tinha interesse de saber sobre Brás Cubas, nunca tive, nada nunca me deixou curiosa para saber tudo o que ele viveu, então para mim, foi chato. E posso dizer que ele não viveu nada mais que uma vida normal.

Por esses motivos listados acima foi um livro que me deu sono, coisa que nunca acontece, e fiquei entediada a maior parte do tempo, eu só queria que ele terminasse logo. No fim acabei avaliando com quatro estrelas porque apesar da história ser chata, a forma como ela foi narrada foi bem bacana e a conversa com o leitor me conquistou, foram as únicas partes que me mantiveram acordada.

Pra quem nunca tentou Machado de Assis, ele não é tão difícil assim, dá pra ler sem grande sofrimento, mas só leia se o gênero te agrada. Pra quem é obrigado a ler, é aquele ditado: "vâmo fazer o que?", não é mesmo.

Porém não posso ser totalmente injusta e dizer que odiei, teve um capítulo em específico que eu amei, chamado "O bibliômano", que é sobre num futuro, um colecionador de livros se esbarrar numa edição única dessas Memórias.

"Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes."

Agora um breve comentário... Certo trecho diz: "Vendera tudo, quase tudo; um homem, que a amara outrora, e lhe morreu nos braços, deixara-lhe aquela loja de ourivesaria, mas, para que a desgraça fosse completa, era agora pouco buscada a loja - talvez pela singularidade de a dirigir uma mulher."

"Memórias Póstumas de Brás Cubas" foi escrito em 1880. Eu não pude deixar de pausar a leitura para comentar que machismo escancarado dos clientes da tal loja. Nesse mesmo trecho ele diz como antes a loja era bem visitada e então uma mulher toma o lugar do dono e as coisas simplesmente mudam. Hoje em dia muitos empreendimentos são dirigidos por mulheres, mas até hoje, desde 1880 e muito antes, essas mesmas mulheres continuam ouvindo que não são capazes de gerar um negócio.

Minha vontade é colocar todos os trechos marcados, mas vou ficando por aqui.

Quem tem medo de Voltaire?

Comecei a leitura desse livro já com medo de que fosse uma leitura complexa demais ou extremamente difícil, daí eu descobri que é só mais um livro.

Nosso personagem principal, Cândido, mora em Westfália e ali cria amores por Cunegundes, filha do barão, porém como o coitado não vem de boa família, o romance não pode ir adiante e ele é expulso do castelo, começando assim suas desventuras pelo mundo.

Depois que parei de olhar para ele com olhar de seriedade, que parei de coloca-lo no pedestal dos clássicos, ele se tornou um dos livros mais divertidos que eu já li. Eu já terminei a leitura com vontade de reler só para lê-lo com os olhos de leitor mesmo, e não com o olhar acadêmico que dizia "meu deus vou ter que ler Voltaire". E definitivamente o que finalmente aprendi é que livros clássicos nada mais são que livros.

Porque ler os clássicos?

"Os clássicos são os livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados inéditos."
(Por que ler os clássicos - Ítalo Calvino)

Conhecer essas histórias clássicas faz com que acabemos com o preconceito de que são leituras elitizadas e que só os "maiores de espírito" por assim dizer conseguem entender a profundidade de uma leitura desse "nível". Que na verdade, não existe. Qualquer um pode ler qualquer coisa que lhe interesse, independente de ser ou não um clássico. Foi só com a leitura de "Cândido ou o otimismo" que eu consegui pegar Machado de Assis e ler como se fosse mais um autor, o que ele não deixa de ser, pode-se dizer que Voltaire abriu as portas para os livros clássicos na minha estante.

"O trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade."

Meus desacontecimentos

"Desde que o primeiro livro se abriu para mim (e se fechou sobre mim), o cotidiano tornou-se um fardo a suportar. Era aquém demais."

Esse livro me deu uma ressaca literária do bem - aquela que te deixa sem palavras e com vontade de ficar olhando para o teto absorvendo tudo o que você leu nos últimos dias, ou horas. Eliane Brum escreve de forma poética e nos conta desde o princípio de sua relação com as palavras, e como as palavras a salvaram. O livro todo é triste e tem um ar melancólico, te deixa com um aperto no peito e com vontade de deixa-lo pela metade, mas só de pensar na possibilidade você se apega mais ao papel (ou ao Kindle) e não consegue solta-lo até que ele lhe corte pedaço por pedaço. Esse é um livro intenso. "Meus Desacontecimentos" cutuca e faz refletir, e depois vai embora deixando um vazio no peito e no estômago.

De certo modo, todos nós temos nossos desacontecimentos.

Ele é bom do jeito mais estranho que um bom pode ser, afinal como achar que uma coisa que te machucou pode ser boa? Ele simplesmente é. Principalmente para que as palavras significaram a vida inteira muito mais que simples palavras. Eu já sentia que a escrita de Eliane Brum não era alegre desde que li o começo de "Uma/Duas" e por mais doloroso que possa ser, tenho vontade de ler esse outro livro graças à "Meus Desacontecimentos".

Sim!

Eu preciso olhar para a capa do livro quando vou escrever sobre ele, quando o livro é físico chego até a toca-lo, talvez nesse momento o estivesse abraçando de tanto que ele me tocou.

Shonda Rhimes vai nos guiar pelo ano em que resolveu dizer sim à tudo, a todos os futuros acontecimentos de sua vida, tornando-se dessa forma uma mulher melhor principalmente consigo mesma, depois que aprendeu a dizer sim (e alguns nãos) ela conseguiu sair do casulo onde nós, os tímidos e introvertidos, nos guardamos dos devaneios da vida. E com Shonda Rhimes eu aprendi a dizer sim.

Sou suspeita para falar sobre esse livro pois ele se tornou uma leitura de cabeceira, eu faço questão de ter a edição física futuramente para que possa reler e fazer anotações nas bordas, porque pelo menos no meu momento, ele se encaixou com tamanha perfeição que é até engraçado que eu tenha resolvido lê-lo assim, do nada. O que realmente aconteceu. Nem passou pela minha cabeça a existência desse livro muito menos a vontade de ler um "A Arte de Pedir 2.0", mas é mais, é até errado querer coloca-los lado a lado de certa forma. Se Amanda Palmer conseguiu me acordar para as artes e ver que o que fazia ali era incrível sim, Shonda me acordou para mim mesma. Eu consegui me ver na maioria das passagens, o que é bem triste, mas libertador, por já ter soltado várias amarras e já ter algumas se soltando nesse caminho. É uma leitura deliciosa e engraçada na medida certa, uma mistura de auto-biografia com nada de auto-ajuda e muita Beyoncé. Muito. E muitas palavras repetidas.

O que para mim não foi um problema de modo algum, serviram com ênfase e combina com a narrativa de Shonda, parece que ela conversa com você. O livro todo tem um cheiro de #girlpower, Shonda fala diretamente com nós, mulheres, várias vezes, e coisas como "A Pose do Poder" ou ter/ser "duroneza" ficarão comigo para sempre. É até difícil escolher qual citação deixar por aqui.

Só ame esse livro como eu amei (ou ache que ele é um grande clichê) - vai depender muito do momento que você está passando. Mas definitivamente essa frase fala pelo meu momento:

"Está na hora de parar de ficar de pé nos fundos das salas. Encostada nas paredes. Vivendo em minha cabeça. Desejando que tivesse algo a dizer. Se tem algo que aprendi com todos os empurrões de Sísifo que Chris me dá e todo esses "sim" é que, se eu não colocar a cabeça para fora do casco e mostras às pessoas que sou, tudo o que pensarão que sou é meu casco."

Príncipe Caspian e sua linhagem de teimosos

Um ano depois do reinado do Grande Rei Pedro, Edmundo, Susana e Lúcia, equivalente há anos e anos em Nárnia, os protagonistas são chamados em desespero pelo atual príncipe e futuro rei, Caspian, cujo o tio está tentando matá-lo pois o mesmo não precisa mais do garoto para assumir o trono, então nossos quatro personagens já conhecidos voltam a Nárnia para ajudá-lo. Nárnia já não é mais a mesma da Idade do Ouro, ela foi tomada pelos telmarinos (parentes do príncipe) e os mais velhos já não creem mais na antiga Nárnia, e fazem de tudo para as crianças também não acreditarem nas fantásticas histórias de animais falantes e seres da floresta, e muito menos em Aslam. Exceto o príncipe dessa história que vai atrás dos antigos narnianos tentar mudar o curso da história.

A história continua envolvente como nos livros anteriores, apesar de mais rápida. Lewis deixa um gancho falando que ainda não acabaram as crônicas e você fica com vontade de saber qual será a trama da próxima. A partir daqui começamos a dar adeus a Nárnia, assim como Pedro e Susana, estamos ficando velhos demais. Como foi dito lá no segundo livro: "Mas não tentem seguir o mesmo caminho duas vezes. Na verdade, vocês nem devem fazer coisa alguma para voltar a Nárnia. Nárnia acontece. Quando menos esperarem, pode acontecer." - pelo menos para nós, leitores, Nárnia continuará acontecendo toda vez que abrirmos os livros.

O livro não foi ruim de forma alguma, só senti que faltou alguma coisa, ou que as coisas, como já foi dito, aconteceram rápido demais. Enquanto as outras leituras pareceram ter demorado mais, parece que li "Príncipe Caspian" num piscar de olhos.

Sou suspeita agora para indicar a leitura (e a série toda) pois depois desse livro me apeguei emocionalmente a história, mas fica a dica pra quem quer voltar a ser criança e quer ler uma história fantástica - em todos os sentidos.

"Não seria medonho se um dia, no nosso mundo, os homens se transformassem por dentro em animais ferozes, como os daqui, e continuassem por fora parecendo homens, e a gente nunca soubesse distinguir uns dos outros?"

As Crônicas de Nárnia [#3]: O Cavalo e seu Menino (C. S. Lewis)

Três anos depois da leitura do primeiro livro, eu volto à Nárnia em companhia de Shasta, Aravis, Bri e Huin - duas crianças, um cavalo e uma égua.

A história começa com Shasta descobrindo que não é filho do pescador que acreditou ser seu pai nos últimos anos, que nem mesmo o tratava como filho, mas como servo, e então ele decide fugir com o cavalo do tarcaã que também é um prisioneiro, originalmente de Nárnia, e eles partem "para o Norte e para Nárnia!". No meio do caminho se esbarram com Aravis, que veja só, também está fugindo, porém de um casamento arranjado por seu pai, e ela está à bordo de sua égua também falante, também de Nárnia, e a partir daí a história de desenrola.

O livro é de uma leitura leve e fluída, de história cativante. Em momento algum te entedia, você quer saber o que vai acontecer, seja com Shasta, Aravis, os os reis e rainhas de Nárnia - porque sim, os dois reis e as duas rainhas do livro anterior estão nessa história, mesmo que em segundo plano. E mesmo os personagens em segundo plano tem suas histórias bem desenvolvidas e explicadas durante suas páginas

De modo algum este é um livro ruim porém sinto que faltou alguma coisa. Se não fosse uma história infantil sinto que poderia ter sido mais desenvolvido, o pano de fundo poderia ter sido maior, mas para suas páginas está muito bom, por ele ser o que é, conquistou e valeu a pena. Mas, convenhamos, se fosse maior não seria uma crônica.

"Enquanto souber que não é ninguém em especial, será um cavalo muito honrado."

O Mundo de Sofia

Um livro que eu comecei sabendo que ou eu ia amar, ou eu ia odiar. E eu amei.

Sofia Amundsen, quando está prestes a completar 15 anos, começa a receber cartas de um filósofo, e assim começa seu curso particular de filosofia, e durante esse curso ela descobre muito sobre si mesma e o mundo a sua volta enquanto o próprio leitor também reflete sobre a vida, o universo e tudo mais (e isso não é só uma referência ao Guia do Mochileiro das Galáxias).

O Mundo de Sofia, apesar de suas 550 páginas tem uma leitura rápida e fluida, de um jeito quase mágico eu me sentia sugada pelas palavras de Jostein Gaarder toda vez que eu o abria, e sinceramente, não sei se tivesse tido essa mesma experiência se eu o tivesse lido antes. É um livro bem pesado para quem não se interessa por filosofia, e eu só fui me interessar depois da aula de Fundamentos Filosóficos da Educação, então é oito ou oitenta com ele. Porém de forma alguma ele é um livro ruim por isso. Chegando lá na metade do livro, quando você acha que a história continuará mais do mesmo, tem um plot twist que simplesmente faz seu cérebro explodir e não dá mais para largar até terminar.

Recomendo para todos os curiosos por filosofia, as perguntas sem resposta e as questões de mundo.

Harry Potter e a criança amaldiçoada

O filho do Harry Potter encontra filho do Draco Malfoy e eles vivem altas aventuras (na sessão da tarde).

Dezenove anos depois da morte de Lord Voldemort  a cicatriz de Harry volta a doer, e ele volta a ter sonhos com o Lorde das Trevas. Paranoico e com medo, ele quer fazer de tudo para a afastar seu filho, Alvo Severo, de Escórpio Malfoy (sim, o filho de Draco), pois há boatos de que Escórpio é filho d'Aquele Que Não Deve Ser Nomeado. A trama gira em torno da amizade de Alvo e Escórpio, Cedrico Doggory e um vira-tempo, e como sempre, nada é o que parece - temos uma grande surpresa no final.

É uma leitura rápida e fluída principalmente pela sua construção teatral, e J.K. não deixa a desejar em momento algum. Continua sendo a mesma Joanne dos outros sete livros. A essência continua sendo o poder do amor e da amizade e apesar de uns tropeços no começo até acostumar com a construção, vale a pena ler a o final.

Mas se você não é o maior fã de teatro de todos os tempos, bom, pode ser difícil engolir a história, e mesmo que eu goste de ler outras coisas que não sejam romances propriamente ditos, senti falta das descrições e daquela narrativa que já conhecíamos. Eu não me importaria se este livro fosse um super romance de seiscentas páginas, ou até mesmo uma trilogia, desde que eu conseguisse mergulhar naquela história de verdade. Aqui ficamos só na superfície.

Recomendo para todos os fãs de Harry Potter que querem voltar a Hogwarts numa perspectiva diferente da dos olhos do menino que sobreviveu.

Chuva no parque (Maurício Kanno)


                    Inspirada na Tatiana Feltrin resolvi tirar o pó 
dos meus livros de contos e crônicas 
e comentar sobre eles.

O que começa uma crônica romântica termina uma crítica engraçadinha ao ar condicionado do metrô de São Paulo. Depende do ponto de vista, na verdade. Se seu humor estiver problematizando tudo, capaz que você encare com palavras duras e diretas de que o ar é gelado demais para um dia frio, mas se estiver de bom humor, conseguirá rir e até se lembrar de uma situação parecida que aconteceu com você mesmo há um tempo atrás.
A terra da garoa inclusive tem para si um comparativo com Veneza e suas gôndolas, o que eu particularmente acho válido aqui pra cidade quando chove muito forte no shopping. Boatos que fizeram as casinhas dos ônibus num antigo rio que secou. Bom, eu nunca fui em São Paulo, mas insisto em dizer que Uberlândia é um projeto de São Paulo nas questões climáticas (e às vezes no trânsito também).

A crônica aparece no livro "Aquarela", organizado por Helena Gomes e Carla Yanagiura.

O zen e a arte de escrever sobre qualquer coisa

Sinceridade. É disso que Ray Bradbury falou o livro inteiro. Sinceridade consigo mesmo, sinceridade com as palavras. Guardar cada memória vivida e então quando ela quiser explodir, deixa-la vir da forma como quiser. 

Escrever sobre o cotidiano, mesmo que de forma indireta. Escrever sobre si mesmo. Daí lembrei do BEDA que teve em agosto do ano passado que fiquei me coçando para participar mas "de onde vou tirar 31 fucking textos?", daí eu percebi o quão pouco andei escrevendo nos últimos meses e quanto já escrevi só em abril. 

Bradbury fala de não ter vergonha dos velhos textos, e que tudo bem odiar 45 dos 52 que você escreveu em um ano, escrevendo um texto por semana, mas independente disso, é simplesmente continuar escrevendo e transformar quantidade em qualidade - já que o que se espera é que com tamanha prática, seus escritos melhorem com o tempo. 

Uma mistura de experiência pessoal com dicas pontuais (e um pouco de ar de auto-ajuda), saí do livro querendo escrever loucamente e colocar todos os meus sentimentos no papel, dos bons aos ruins, dos melhores aos piores dias. Escrever, olhando assim, é quase um casamento, principalmente quando se escreve sobre a vida real. Na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, a diferença é que nem a morte nos separa de nossas obras.

"E o que, você me pergunta, escrever nos ensina? Primeiro e mais importante, escrever nos faz lembrar que estamos vivos (...)."

« skoob »

Precisamos falar sobre The Musketeers


Eu terminei de ler Os Três Mosqueteiros mês passado e eu mal havia terminado, ele já havia se tornado um de meus favoritos. É arrastado, Alexandre Dumas é o cara das descrições, mas eu amei essa história dos quatro cavalheiros e suas aventuras pela França e redondezas. Athos, Porthos e Aramis. No qual se estabelece que, apesar de seus nomes em os e is, os heróis da história que teremos a honra de contar aos nossos leitores nada têm de mitológicos. Ou talvez tenham. Os três mosqueteiros que na verdade são quatro enfrentam grandes inimigos durante toda sua história, mas claramente o maior de todos, é a maior. Milady de Winter. Ou qualquer um de seus outros nomes. Milady foi muito bem criada por Alexandre Dumas e tudo o que você quer é que ela perca logo a cabeça – literalmente. 

Intrigas, política, amores proibidos, é de tudo isso que se trata essa história, na qual você se vê apegado aos personagens e com medo de que algo os aconteça, mas logo você percebe que mosqueteiros não morrem facilmente. Queria poder dizer o mesmo dos outros personagens. E acho que o mais importante a se dizer, tem base histórica. Um romance de capa e espada como dizem, que foi adaptado, e me permito dizer que fielmente, para uma série de TV. Eu já sei o que acontece, mas cada minuto vale a pena. Claro, posso ter imaginado alguns personagens um tanto diferentes, como um cardeal gordo, uma Milady loira e um Porthos galante, mas nesse último lembre que Aramis era o nosso amante o tempo todo. As batalhas e tramoias fazem jus à escrita de Dumas, temos ação em todos os episódios e não se assuste com os 45 minutos de duração. Não poderia ser menor que isso. Já terminei o livro querendo reler, e agora que estou assistindo à série, quero mais ainda.

Estamos falando de um romance de época, o visual não poderia ser mais do que incrível, mas pode ser que você não consiga aproveita-lo muito bem devido às batalhas. Eu provavelmente assisti alguma adaptação, mas acho que nenhum filme de três horas daria conta dessas 788 páginas fielmente. Acontece muita coisa com os mosqueteiros e fico feliz em acompanha-los agora nessa série. E é bom e ruim saber como tudo termina. E, por favor, que eles não mudem o final de nenhum personagem. De um deles eu até ficaria feliz, mas sejamos realistas. A série está rodando, espero que a terceira temporada saia logo, e se você ainda não entendeu, eu indico os dois: seriado e livro.

O diário de Anne Frank

"Espero poder contar tudo a você, como nunca pude contar a ninguém, e espero que você seja uma grande fonte de conforto e ajuda." - 12 de junho de 1942.

Eu não tenho palavras para comentar esse livro. Assim que terminei, já comecei a ler novamente, e me arrependo de não ter feito anotações e marcações, mas eu queria assim, para poder reler de forma diferente. Não que eu não tenha lido profundamente, mas eu queria um primeiro contato sem me preocupar com as passagens, eu só queria ler de cabo a rabo, para depois reler e continuar relendo, porque ele se tornou um dos meus livros de cabeceira. Não vou nem me dar ao trabalho de escrever uma sinopse, pois se tratando da Segunda Guerra Mundial, você já tem uma ideia do que Anne escreveu nessas páginas. 

O diário de Anne me fez refletir sobre várias coisas, mas no momento, quando paro para pensar nas últimas 404 páginas, eu só consigo pensar nos arrastões que estão acontecendo no Rio de Janeiro, na guerra civil na Síria e em todos os pequenos delitos que cometo e cometemos do dia-a-dia. Só de pensar que há 70 anos uma adolescente escrevia sobre isso, sobre o horror que era, e ainda é a guerra, as pessoas se machucam o tempo todo, e continuam se machucando, e parece que o mundo não mudou tanto assim. Ainda temos ditadores. Ainda temos a morte de inocentes. Estamos estagnados no tempo e, pelo o que parece, longe de mudar. E a trilha sonora perfeita para esse momento é a música O Lobo, da Pitty.

"Há uma necessidade destrutiva nas pessoas, a necessidade de demonstrar fúria, de assassinar e matar. E até que toda a humanidade, sem exceção, passe por uma metamorfose, as guerras continuarão a ser declaradas, e tudo o que foi cuidadosamente construído, cultivado e criado será cortado e destruído, só para começar outra vez!" - 1944 (perdi a data correta)

Esse foi o único que trecho que nessa primeira leitura eu tive realmente de marcar. Quando as pessoas vão parar de lutar umas com as outras? Quando as guerras vão deixar de existir? Tento ser otimista e pensar que estamos caminhando para a evolução, mas só de ler as notícias, vejo como estamos andando para trás. Durante os dois anos escondida no Anexo Secreto e tendo apenas o diário como válvula de escape, Anne amadureceu muito, e durante toda a leitura eu me esquecia que aquilo tinha acontecido de verdade. Toda vez que pausava a leitura vinha aquele click seguido da bad (não tem definição melhor para o que eu senti lendo o diário), e minha fé na humanidade ia se esvaindo cada vez mais. Anne foi uma adolescente com medos, dúvidas e descobertas, e não sei onde ouvi isso, acho que foi em Minha querida Anne Frank, enquanto o diário continuar vivo, Anne continuará viva.

Ler o diário de Anne é válido não apenas para os entusiastas de história, mas para qualquer um que queira ler uma nova perspectiva sobre tudo. Anne aborda muitos assuntos nesses dois anos de cativeiro, e sim, cativeiro porque eles não eram livres, por mais que não estivessem literalmente presos. Reflexões sobre a guerra, rompantes feministas, literatura, amor e tudo que pode sair de uma menina entre seus 13 e 15 anos. Anne adorava estudar e aprender sobre tudo, queria ser jornalista e depois, escritora. Eu já indiquei o livro Contos do Esconderijo aqui, e vale a pena ler a ficção de Anne, inclusive ela comenta um de seus contos no diário, A Vida de Cady

Anne me inspirou a mudar e buscar sempre ter nem que seja uma pontinha de esperança na humanidade e em mim mesma. Enfim, como eu disse, já estou relendo o livro e quero fazer um diário de leitura dessa vez, quero fazer comentários e responder às "cartas" de Anne. Entrou para os favoritos da vida.

« skoob »

Contos do Esconderijo (Anne Frank)

Se Pollyanna fosse uma menina de verdade, seria Anne Frank.

Em Contos do Esconderijo somos apresentados à algumas passagens excluídas do diário de Anne e algumas histórias que ela escreveu durante os dois anos escondida no anexo secreto, a primeira parte sendo ficção e a segunda, memórias da Anne, somando um total de trinta contos. Eu amei cada pedacinho do livro, mas marquei dois em especial: A Fada e O Poço de Iniquidade. Em todos os contos podemos ver o fio de esperança que Anne segurava e tentava manter consigo à qualquer custo, e tentava passar isso para as pessoas. E também vemos que ela era uma garota normal, como tantas outras, como nós fomos, e tentar se manter alegre e esperançoso naquelas circunstâncias... é de se admirar.

Em A Fada (12 de maio de 1944), conhecemos Ellen, a fada, que perdeu os pais muito jovem e herdou todo o dinheiro da família, e então em uma noite ela decide doar esse dinheiro aos menos afortunados para que eles fiquem alegres. Mas com o tempo, vendo que o dinheiro ia acabando, ficou se perguntando o que poderia dar aos pobres, foi quando chegou à conclusão de que poderia se dar, dar seus ouvidos e sua companhia.

Ela continuou a dar muito, não dinheiro mas bons conselhos e palavras carinhosas e curativas. Tinha aprendido que mesmo se alguém está completamente sozinho, ainda pode fazer de sua vida algo maravilhoso; e não importa o quanto alguém seja pobre, porque ainda pode proporcionar aos outros muitas riquezas.

Já em O Poço de Iniquidade (22 de fevereiro de 1944), Anne disserta sobre o nu e aqueles que "tendem a encontrar defeitos em quem não está suficientemente vestido". Quão atual é isso? Mês passado a Anna Vitória escreveu sobre o babaca nosso de cada dia que resolveu dar palpite sobre o tamanho de sua saia. Aí eu te pergunto, o que é estar "suficientemente vestido"? Parece que o cenário mudou, mas as pessoas, nem um pouco. Bora evoluir galera, já se passaram setenta e um fucking anos. Na verdade isso não deveria nem ter começado.

Nem por isso deve-se pensar que sou daquelas que acham que seria melhor vivermos como os homens das cavernas ou andar por aí vestidos apenas com peles de animais; não, absolutamente, gostaria apenas que nossa existência fosse um pouco mais livre, um pouco mais natural, um pouco mais informal.

Anne tinha pensamentos fortes para alguém de sua idade e tinha opiniões maduras sobre vários assuntos. Não sei se foi a guerra, a criação, ou sua própria personalidade, mas Anne Frank é uma garota de admirar e ter como exemplo. E não sei porque mas, eu acho que se ela vivesse nos dias de hoje, ela seria o tipo de pessoa que teria um blog.

Para cima e não para norte (Patrícia Portela)

Um livro sobre... livros? Leitores? Palavras? A tinta usada na hora de escrever? Um livro sobre ler, talvez. Para cima e não para norte nos conta a história do Homem Plano, que aparentemente vive dentro de um livro, ou de todos os livros do mundo. Ou de todos os papéis escritos do mundo. Uma história com várias interpretações e totalmente interativa, é como se o Homem Plano falasse com o leitor corrente. Ele nos conta sua história na íntegra e eu me senti sugada pelo livro. Cada leitor tirará uma conclusão do livro apesar da história ser uma só e ser contada de uma forma só. E se você for tocado, nunca mais lerá nada da mesma forma. Antes, você era apenas o observador, agora você se sente observado. Foi assim que eu me senti lendo Para cima e não para norte.

Ou seja, no vosso dia a dia quando me olham aí de cima, como normalmente fazem, veem um triângulo, mas se o vosso olhar pudesse ler ao mesmo nível da folha de papel, poderiam constatar que, nessas condições, o triângulo de baixo é visto como um segmento de reta, e eu não sou mais do que uma linha, eu nem diria bem um linha, diria que sou um pouco mais pequeno que uma linha, por isso têm de imaginar que esse segmento de reta que imaginam ver é mais curto, tão curto, tão curto, que, de facto, ao vosso olhar, eu fico reduzido a um ponto, e, sozinho, não me pareço muito com nada, mas se imaginarem muitos de nós sozinhos...

Eu amei cada pedacinho e detalhe desse livro e a edição condiz muito com a história, que te faz interagir com o Homem Plano. Não fosse o intervalo entre as páginas 173 e 199, ele teria levado as cinco estrelas, e talvez o favorito. Esse livro é vivo, e se você não prestar atenção, acaba sendo levado por ele.

-esse livro é vivo, e se você não prestar atenção, acaba sendo comido por ele (juro que tentei não pensar em HP)-

A obscena senhora D (Hilda Hilst)

Esse livro me deu ansiedade. E eu não entendi. Mas eu gostei, só que não... absorvi. E entrei em uma crise existencial após a leitura, onde eu quero ler outras coisas, mas quero reler ao mesmo tempo. E quero o livro físico para reler, pois li em e-book. E estou confusa. E não sei o fazer. O que sentir. Seja lá o que é que eu estou sentindo.

Eu me identifiquei com a forma de escrita da autora, pelo menos nesse livro é bem como se fosse um brainstorm, as palavras são simplesmente jogadas nas páginas, todas ao mesmo tempo e você não sabe bem o que está acontecendo, ou quem está falando, se você não prestar atenção. E mal tem pausas, então se você não se segurar acaba lendo tudo de uma vez, o que é bom e ruim. Bom porque ler esse livro com interrupções só me deixou mais confusa, então seria bom tê-lo lido de uma vez. E ruim por que você fica sem fôlego ao engolir as páginas. Eu não sei como ele é fisicamente já que li em e-book, mas pelo menos no celular as palavras pareciam agarradas uma as outras, então eu meio que enfiava vírgulas onde não tinha.

Sobre a história em si, esse livro é mais de como a Hillé se sentia, e é mais uma conversa consigo mesma do que qualquer outra coisa. Ela acabou de perder o amante e entra no que parece ser uma depressão que aos poucos a vai enlouquecendo até leva-la à morte. A narrativa te leva para o lado introspectivo e sentimental, porém nada romântico. Acho que a melhor definição para esse livro é dizer que ele é humano.

Novamente eu gostei, mas ainda não sei. Eu preciso reler e preciso que seja na edição física para que eu tente respirar dessa vez.

paixão é a grossa artéria jorrando volúpia e ilusão, é a boca que pronuncia o mundo, púrpura sobre a tua camada de emoções, escarlate sobre a tua vida, paixão é esse aberto do teu peito, e também seu deserto.

Saga do Assassino [#1]: O Aprendiz de Assassino (Robin Hobb)

O Aprendiz de Assassino vai contar a história de Fitz, o filho bastardo do Príncipe Herdeiro, que aos seis anos de idade é largado por seu avô materno aos cuidados do castelo. Ele não chega a conhecer o pai, Cavalaria, e fica aos cuidados de Bronco, o responsável pelos animais, até que um dia o rei Sagaz, seu avô, percebendo que o garoto pode ser uma ameaça para a coroa no futuro, decide trazê-lo para seu lado e torná-lo um homem do rei. Com isso Fitz é introduzido às boas maneiras, luta, e tudo mais que os de bom nascimento têm direito dentro da torre, mas além disso, ele também é transformado no assassino do rei, aprendendo a matar das mais diversas formas.

Começamos o livro com um Fitz ainda criança e vamos acompanhar seu crescimento durante a história que é narrada em primeira pessoa por ele mesmo, porém em forma de lembrança. Dá-se a entender que ele já é bem mais velho quando está contando essa história. Grande parte se passa em Torre do Cervo e na Cidade de Torre do Cervo, e no momento estamos passando por um mal momento onde salteadores estão atacando as regiões, sequestrando e Forjando habitantes. Torre do Cervo é a cidade principal dos Seis Ducados e é onde mora a realeza. Durante a história acompanhamos três faces do Fitz: o bastardo, o Novato e o assassino. Eventualmente ele desce para a cidade e lá faz alguns amigos que não sabem absolutamente nada sobre sua vida, que é onde eu acho que ele mais consegue ser ele mesmo, por mais que ele não possa contar detalhes de sua vida na Torre. E sua vida de assassino é conhecida aparentemente apenas pelo rei, seus dois filhos e seu professor, Breu, que para mim é um dos personagens mais legais do livro.

Durante a narrativa todos os personagens têm alguma razão e nenhum de seus diálogos é vazio. E todos são muito bem criados, você se importa com todos eles. Muita gente pode não gostar e achar cansativo, mas o livro é muito descritivo, uma coisa que eu gostei, pois as descrições me jogavam para dentro da história. A autora descreve de lugares à pessoas de forma que você consegue imaginá-los perfeitamente. E uma das coisas que eu mais gostei foi a forma como ela conseguiu narrar tão bem coisas tão triviais como o tempo.

Assisti ao nascer do sol através das árvores e tirei cochilos irregulares a manhã toda. A tarde me trouxe uma espécie de paz desgastada. Eu me distraí sondando ao redor a vida selvagem do monte. Ratos e pássaros eram pouco mais do que brilhantes faíscas de fome na minha mente, e os coelhos pouco mais do que isso, mas havia uma raposa no cio à procura de companheiro e, mais longe, um cervo batia a pele aveludada nos seus cornos com tanto propósito quanto um ferreiro na bigorna.

A magia nesse livro não foi explicada nem muito abordada a ponto de ser apresentada ao leitor formalmente, mas foi suficiente e espero que ela seja explorada no próximo. Aqui temos duas formas de magia: a Manha e o Talento. Bem parecidas entre si, a Manha é o poder de se comunicar mentalmente com os animais e o Talento é o poder de se comunicar, e não só comunicar, mas também influenciar, mentalmente as pessoas. A Manha não é bem vista, visto que para eles é como se você se transformasse em um animal ao ficar muito tempo em conexão com o mesmo, e o Talento é ensinado apenas a realeza, como se passasse de geração para geração. Fitz nasceu com o dom da Manha, mas Bronco o proíbe de usa-la, e mais para frente o Rei pede que Fitz seja introduzido no Talento.

Um ponto interessante a ser comentado, todos os personagens do livro têm nomes que direcionam a sua personalidade ou qualidade mais forte, ou simplesmente resume quem é aquela pessoa. Temos o rei Sagaz, seus filhos Cavalaria, Veracidade e Majestoso, a esposa de Cavalaria, Paciência, o professor de Fitz que o ensina a matar, Breu. Se você parar para analisar, consegue perceber porque tal personagem tem tal nome. Por exemplo Fitz, o bastardo, que segundo a nota do tradutor foi o único que manteve o original por não ter correspondente em português, nesse caso, valeu a pena traduzir os nomes próprios.

Cada capítulo começa com uma lenda daquele mundo e nos mostra um pouco de sua história, como se fosse um lugar real, vivo, com todos os seus mitos e tradições. Eu gostei bastante desse livro e estou doida para ler a continuação. 

ps.: o livro tem mapa.

Vacaciones (Ana Paula Barbi)

Eu não poderia ter lido "Vacaciones" em melhor momento. Primeiro porque eu li enquanto fazia 21 anos e segundo porque eu li na estrada. Timing perfeito. Eu achei que não gostaria do livro, mas superou minhas expectativas e ele cumpre o que promete, li em e-book e quero muito uma edição física pra chamar de minha. Plot twist: só tem em e-book. (╥_╥)

Em "Vacaciones" vamos acompanhar as entradas do blog de Ana Paula Barbi entre os anos de 2004 à 2007 e depois 2013, entre seus 20 e 30 anos, todas as burradas, todos os seus aprendizados, ela se descobrindo e descobrindo o mundo. Acho que o que mais rolou durante a leitura foi a vontade de ser a Ana Paula ou pelo menos ser parecida um pouco com ela. O que é bizarro porque essa é uma história real. 

"Se você não vê nada diferente, se você não se arrisca, se você não quebra a cara, nada muda mesmo." 

E por mais diferente que você seja da autora, em algum momento você vai se identificar com ela e seus pensamentos. Não sei se você acredita em destino mas essa história ter parado nas minhas mãos no meu aniversário de 21 anos durante uma viagem é coincidência demais pra um raio só. Ok que eu já tinha começado a lê-lo antes mas eu só peguei o ritmo mesmo alguns dias antes e resolvi que ia terminar já que é um tipo de leitura rápida, diferente do outro livro que estou lendo. Destino, minha gente, foi ele fazendo graça com a minha cara de novo. 

"Vinte e um. Foda. Porque né, depois dos vinte fodeu. Vinte e dois, vinte e três, vinte e quatro, dor na lombar, trinta, glaucoma, quarenta, enfisema, varizes, cinquenta, problema de gota, setenta, câncer, oitenta, e pronto. Você morre na fila do SUS." 

Por fim, esse livro fala por si só. E eu quero ele falando na minha estante. (Se você não conseguiu pegar a mensagem: isso foi uma indicação porque eu adorei o livro, eu diria "amei", mas não tenho certeza, mas tenho certeza suficiente para comprar a edição física dele por mais que ela seja inexistente, ou seja: leia esse livro).

Lonely Hearts Club (Elizabeth Eulberg)

Pode haver spoilers.

"Eu, Penny Lane Bloom, juro solenemente nunca mais namorar enquanto viver.", e é com essa declaração que começamos esse amor em forma livro. Após passar por uma decepção amorosa, a adolescente Penny decide nunca mais namorar na sua vida - ou pelo menos até terminar o colégio. E então ela funda o Lonely Hearts Club. Se depois de ver a capa do livro, ler o título, saber o nome da personagem principal e ler essa introdução você não pegou a referência: The Beatles. Eu também não me toquei, só fui perceber depois que já tinha começado a ler. Eu comprei pela a capa e não sabia uma vírgula da história, e foi uma das melhores leituras até agora. Acho que se eu tivesse pesquisado um pouco antes de comprar, teria desdenhado o livro e deixado pra lá - ainda bem que não fiz isso. 

Começamos o livro sendo introduzidos ao motivo pelo qual Penny decide criar o clube. Somos também apresentados à seus pais, beatlemaníacos, e descobrimos que não só Penny Lane tem seu nome inspirado nas músicas da banda. Ao decorrer dos capítulos conhecemos outros personagens ao redor de Penny e cada um deles trás algo para a história, a autora trabalhou sutilmente cada um deles apesar do livro ser narrado em primeira pessoa. Conhecemos as dores de cada um e o amadurecimento de Penny. Mais do que relacionamentos adolescentes, o livro trata de amizades e como ter os amigos ao seu lado é mais importante do que qualquer outra coisa.


O livro é dividido por partes e cada parte tem o nome de uma música do Beatles. A edição é linda! Cheia de detalhes que combinam totalmente com o clima da história. A declaração de Penny no começo do livro vai aos poucos ficando para trás depois que ela coloca um ponto final (com estilo) em seu relacionamento anterior. Pode parecer óbvio o fato de ela terminar o livro ao lado de alguém mas não tem como não torcer pelos dois. Se você for ler o livro, depois dessa frase você já matou quem será o par amoroso de Penny no final. E apesar de achar essas frases promocionais bem forçadas - "leitura imperdível para qualquer pessoa que já esteve apaixonada... ou que jurou nunca mais passar por isso". Você vai se identificar. Quantas vezes eu já repeti essa mesma frase! Penny tenta negar seu amor e bloquear todos os seus sentimentos pelo medo de se machucar de novo. Quem nunca?


Não só nos títulos estão as referências, os Beatles estão presentes no livro todo. Da contra capa às falas dos personagens ao nome do clube. E no nome da personagem principal, claro. Penny Lane. Passei o livro todo dizendo que eu era a Penny. Penny é tudo que eu fui quando tinha sua idade e de vez em quando ainda sou. E digo que esse livro não poderia ter parado em minhas mãos em melhor momento - eu não o teria aproveitado da mesma forma se tivesse lido na adolescência. Tirando os Beatles eu me vi em cada frase e drama e pelos olhos de Penny. Claro que não passei pelas mesmas coisas que ela, quem me dera ter um Ryan na minha vida, mas eu a entendo e teria agido da mesma forma. Eu agi da mesma forma. Eu passei por isso. E esse livro não poderia ser mais uma biografia do que ele já é.

Here comes the sun, and I say it's all right... E tudo bem dar uma chance ao coração as vezes pois mesmo machucado, ele volta a bater. Não importa quão frio está o inverno e quão gelado está o seu coração, ele vai voltar a derreter e bater. E gente, Beatles é muito bom.

Brida (Paulo Coelho)


O livro conta a história de Brida, uma jovem de 21 anos que deseja conhecer os mistérios do mundo e si mesma através da magia. Durante a narrativa acompanhamos a evolução da personagem e a descoberta da Outra Parte.

Como estudante da Wicca eu tinha que me lembrar o tempo todo que esse é um livro de ficção. A narrativa não é contínua no sentido de prender o leitor. Desde o começo e sempre após voltar à história depois de uma pausa eu demorava a pegar o ritmo. É um livro lento, sem grandes reviravoltas. Eu pessoalmente me identifiquei muito com a personagem principal, Brida, isso em partes me incomodou por cutucar velhas cicatrizes mas também me fez gostar mais ainda do livro. Há tempos eu queria ler um livro onde a personagem tivesse pelo menos a mesma faixa etária que eu e me esbarrar logo com a Brida que é quase uma biografia da minha vida foi muito legal.


Peguei Paulo Coelho para ler por pura curiosidade já que tanta gente fala mal e consegui passar da metade do livro com algumas marcações feitas. Apesar da história ser lenta a forma como ela foi narrada faz do livro uma leitura rápida. Ok, isso não fez muito sentido. Quando eu pegava para ler eu demorava a entrar no ritmo de Coelho mas depois de algumas páginas eu já estava devorando o livro de novo. Os capítulos em sua maioria são super curtos, para quem lê no ônibus é uma maravilha, e eles não são enumerados, confesso que estranhei de primeira vista mas nada que me deixou incomodada demais ou que tenha atrapalhado a leitura. É como se fosse um diário da iniciação de Brida na bruxaria. 

Tinha esquecido essa lição com muita rapidez. Apesar de ter apenas 21 anos, já havia se interessado por muitas coisas, e desistido com a mesma rapidez com que se apaixonava por elas. Não tinha medo das dificuldades - o que a assustava era a obrigação de ter que escolher um caminho. Escolher um caminho significava abandonar outros. Tinha uma vida inteira para viver, e sempre pensava que talvez se arrependesse, no futuro, das coisas que queria fazer agora.

Certos pontos me incomodaram como a citação de alegorias cristãs no meio de um livro inspirado na Wicca, mas depois de ler um comentário nessa resenha eu dei um desconto para o Paulo Coelho. Mesmo com tanta gente falando mal do autor eu estou com vontade de ler outras coisas e descobrir novas histórias.